terça-feira, 21 de agosto de 2007

Matança

Histórias de serial killer baseadas em fatos reais são muito comuns no cinema e por isso acabam se tornando repetitivas. Isso se os realizadores não forem competentes o suficiente para contarem suas histórias de forma criativa. Bons exemplos são o novo filme de David Fincher e o trabalho que deu visibilidade ao realizador sul-coreano Bong Joon-ho. Zodíaco e Memórias de um Assassino, cada qual a sua maneira, possuem vários aspectos em comum, mas é o estilo de seus diretores que garantem a qualidade das produções.

Zodíaco (Zodiac, EUA, 2007)
Dir: David Fincher




São poucos os filmes de quase três horas de duração que conseguem manter um mesmo ritmo e o espectador atento. Zodíaco é um desses trabalhos graças a um esforço conjunto. David Fincher, sem maneirismos ou exageros, constrói com muito controle uma narrativa sóbria sobre a investigação do assassino serial auto-intitulado Zodíaco e que tirou o sono da polícia (e da população) de San Francisco, nos EUA, por mais de três décadas. O criminoso faz o tipo ousado que avisa a polícia de cada assassinato cometido além das mensagens cifradas enviadas aos jornais.

Tudo no filme funciona bem. O roteiro é excelente, se constrói sob o ponto de vista da investigação e exige atenção máxima, pois é ágil e possui toques de humor inteligente para quebrar o clima pesado. Todo o elenco, sem precisar de um protagonista, está impecável, com destaque para o sempre louco Robert Downey Jr. (embora goste muito do Marc Ruffalo no filme também). Além disso, o filme conta com uma edição precisa e linear, uma trilha sonora agradável e reconstituição de época invejável através de uma direção de arte afiada. Com certeza, um dos melhores filmes do ano.

Memórias de um Assassino (Salinui Chueok, Coréia do Sul, 2003)
Dir: Bong Joon-ho




O tema é sério. Mulheres estão sendo assassinadas brutalmente numa cidadezinha do interior da Coréia do Sul. Começa, então, a caça ao responsável e somos surpreendidos por uma dupla de policiais desajeitados à frente do caso. No início, o filme possui um tom de chacota e humor (são hilárias as cenas da sauna e do operário de calcinha). Mas à medida que a história transcorre, a situação ganha a seriedade necessária e o filme se torna mais sombrio.

Bong Joon-ho, como já mostrou no seu ótimo O Hospedeiro, tem um olhar excepcional para composição de cenas, mas sem ser esquemático. Seus enquadramentos dão a impressão de que cada coisa vista na tela está em seu devido lugar. Ele tem total controle sobre o filme que também é um pouco longo, mas flui que é uma beleza. O mistério em volta da identidade do assassino nos deixa cada vez mais apreensivos culminando com um final que pode desagradar a alguns. Ao fim, o desenvolvimento da história vale mais que a solução do mistério.


Postado por Rafael Carvalho

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Pura poesia em cena

Inicialmente gostaria de me desculpar por ter passado tanto tempo afastada do blog. A razão da minha ausência foi ter ocupado o meu tempo disponível estudando para um concurso. Senti muita falta e estou de volta!

Desculpas também pelo tamanho do texto abaixo! Ele foi reduzido de 4 a 2 páginas, mas continua grande. Para os que tiverem paciência: espero que gostem!

Lavoura Arcaica (Idem, 2001)
Dir: Luiz Fernando Carvalho
Lavoura Arcaica, adaptação do livro de mesmo nome de Raduan Nassar, conta a história de André, um dos cinco filhos de uma família libanesa que vive no Brasil. Tendo crescido em uma fazenda bucólica e imersa em costumes que justificam o título do filme, André se vê atormentado por sentimentos que contrariam todas as noções que lhe foram transmitidas por seu rígido pai. Realiza então a fuga que virá a definir os rumos de toda a família.

Pedro, o irmão mais velho do protagonista, é incumbido da missão de tentar trazer André de volta ao lar. A partir de então, se depara com o relato sofrido e violento do irmão mais novo que descarrega todas as suas angústias e segredos, desmontando diante de Pedro a imagem de uma família unida e imaculada que seu Pai lutara em construir.

É através da narrativa poética e verborrágica de André que o espectador mergulha no passado do personagem, pelos momentos da infância e adolescência na fazenda, e entende seus atos e sensações do presente. Nesse aspecto a montagem do filme foi tão bem trabalhada que faz com que as narrativas lentas de cada período sejam intercaladas de modo a não ficarem cansativas e prenderem a atenção todo o tempo.

Sentado sempre à cabeceira da mesa, o pai, personagem de Raul Cortez, reunia durante as refeições a mulher e filhos num ritual de submissão no qual lhes ensinava lições de sabedoria. Essa cena se repete várias vezes ao longo do filme e nas várias fases dos personagens, constituindo para André o grande elemento de hipocrisia de seu pai.

Já o carinho de sua mãe funciona como contraponto diante de toda essa frieza do pai, chegando a ser exacerbado e a insinuar conotações sexuais. O próprio André ressalta que “se o pai, no seu gesto austero, quis fazer da casa um templo, a mãe, transbordando no seu afeto, só conseguiu fazer dela uma casa de perdição”. Não fossem as demonstrações da mãe, talvez os filhos não encontrassem meio de fugir ao flagelo emocional ocasionado pelo pai. Também afirma “o galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as raízes; já o da esquerda trazia o estigma de uma cicatriz, como se a mãe, que era por onde começava, fosse uma protuberância mórbida pela carga de afeto”. È interessante observar que o “galho da direita”, além da presença da mãe, tinha a de André, Ana e Lula, todos personagens complexos e que desafiam a estrutura da casa.

A fotografia de Walter Carvalho é impecável. Na maioria do tempo alcança-se a sensação de utilização de luz local. De dia, a luz entrando pelas janelas da casa da fazenda ou pelas frestas da casa abandona dos fundos, sempre em tons amarelados, dão a sensação de antigüidade e diferem da luz encontrada fora de casa, em momentos mais claros e de contato com a natureza. Tal diferença também pode ser notada quando há a narração dos momentos de infância de André, onde prevalecem na fotografia os tons de branco.

A noite, por sua vez, é marcada quase que em todas as cenas por um tom sombrio, ocasionado pela luz proveniente de lamparinas e, num momento fortíssimo do filme, de uma lâmpada que o protagonista acende durante a conversa com o irmão. Destaque para a atmosfera criada na mesa do jantar, onde uma lamparina ilumina precariamente os integrantes da mesa e tudo ao redor é um completo e angustiante breu.

Outro aspecto que chama a atenção no filme é a grande utilização de closes. Cada detalhe, principalmente os momentos de contato físico entre os personagens, são enfocados pelo diretor. Tal característica parece sugerir um mergulho ainda maior nas relações humanas do filme. Este recurso é também utilizado nas diversas cenas em que os pés de André são filmados: tirando os sapatos, sentindo o chão, roçando entre as folhas.

A trilha sonora do filme é marcante. Predominantemente composta por instrumento de cordas, ela é melancólica em alguns momentos e agitada em outros - principalmente nos de festa em que prevalecem as canções de origem árabe. Há, no entanto, nos momentos de alta tensão do filme, a bela utilização de acordes intensos ou simplesmente do silêncio para conferir às cenas um grau de densidade que corresponda à intensidade que cada cena requer.

Cabe ressaltar o memorável trabalho dos atores envolvidos no filme. Selton Mello despe-se de todos os tipos que poderiam compor um “André” estereotipado e mergulha no personagem de forma entregue e, por que não, visceral. Simone Spoladore, que sem dizer uma palavra sequer, transmite com maestria toda a ambigüidade da personagem Ana. Com roupas claras e leves que pressupõem pureza, e beleza avassaladora e misteriosa, conseguimos sentir a cada cena o sentimento exato que permeia a mente de sua personagem. Juliana Cordeiro da Cunha, a mãe, também surpreende pela sua expressão marcada e de poucas palavras.

O desfecho é surpreendente e faz valer à pena esperar os longos 163 minutos da película.

Postado por Andressa Cangussú

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Corrente literária



Imagino o que teria sido de mim se não tivesse descoberto o prazer pela leitura há algum tempo. Ganhei Harry Potter e a Pedra Filosofal e quando vi aquele livrão (sim, nos meus 12 anos era enorme e, pior, sem figuras) pensei: "Ai caramba, eu vou ter que ler esse livro mesmo?". Mas foi minha madrinha quem me deu e se ela perguntasse o que tinha achado do livro? Tive que ler então, né. E foi aí que a magia aconteceu. Chegou um momento que eu não conseguia mais parar de ler. E a vontade não parou até hoje. Escolher cinco livros é difícil, mas aí vão os meus atuais preferi dos.


1. Cem Anos de Solidão (Gabriel García Márquez)

A partir do momento em que eu entrei em contato com a obra do Gabriel García Márquez com Crônica de uma Morte Anunciada eu me tornei fã do cara. E Cem Anos de Solidão foi uma experiência marcante. O realismo fantástico construído com maestria e elegância nos deixa extasiados, enquanto testemunhamos a saga da geração de toda uma família. A leitura flui da forma mais agradável possível desejando que a leitura não terminasse nunca.

2. Crime e Castigo (Fiódor Dostoiévski)

A leitura de Dostoievski é densa, mas nunca complexa ou cansativa. Acompanhamos os delírios e pensamentos da mente de um personagem atormentado por si mesmo e por seus demônios internos. A gama de tramas paralelas só enriquece a narrativa que prima mais pela introspecção psicológica dos personagens do que pela ação em si.

3. Lavoura Arcaica (Raduan Nassar)

Antes mesmo de me maravilhar com o filme dirigido por Luis Fernando Carvalho, o livro de Raduan Nassar me pegou de surpresa. É uma experiência marcante tanto pela estrutura narrativa (os capítulos são formados por um só parágrafo, enormes e sem pontos continuativos) quanto pela densidade da história do rapaz que fugiu de casa por estar apaixonado pela irmã. Pena que o autor só lançou mais dois livros e depois de aposentou.

4. Vidas Secas (Graciliano Ramos)

É com muita simplicidade que esse grande autor de nossa literatura nos dá a história de uma família de retirantes e nos apresenta momentos de degradação moral daqueles personagens. Embora sejam fictícios, há muitos deles na vida real. Com um texto seco e direto, as situações que acompanhamos são brutas e parece não haver solução para aquela família senão o sofrimento e a eterna fuga.

5. A Metamorfose (Franz Kafka)

A situação surreal a que somos convidados a conhecer logo a partir das primeiras linhas do livro mais famoso de Kafka se torna ainda mais prazerosa pela qualidade de seu texto. A naturalidade com que ele conta a história do homem que acorda transformado em um inseto nos aproxima ainda mais da narrativa. Mas não se enganem, a história é densa. Metáfora perfeita de alguém que vive e se sente oprimido dentro do próprio lar.

Passo agora a corrente para André Setaro (Setaro's Blog), Renato Silveira (Cinematório), Wallace Guedes (Crônicas Cinéfilas), Roberto Queiroz (Claquete) e Gustavo Madruga (Cine Ôba). Se virem.


PS: Quase entram na lista O Caso dos Dez Negrinhos (Agatha Christie) e 1984 (George Orwell). Foi uma briga...


Postado por Rafael Carvalho

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Adeus aos mestres

Foi anunciada hoje a morte de um dos maiores cineastas da atualidade. Ingmar Bergman sai de cena aos 89 anos e deixa uma vasta obra para deleite de cinéfilos mundo a fora. Embora tenha se aposentado do cinema em 1982 com Fanny e Alexander, continuou trabalhando na televisão e no teatro onde iniciou sua promissora carreira. Mesmo assim, alguns de seus filmes para a TV forma lançados também na tela grande como seu último trabalho Saraband que resgata a história dos personagens de Cenas de um Casamento, série criada por ele próprio e lançada na TV em 73. Responsável por obras magistrais como Gritos e Sussurros, O Sétimo Selo, Sonata de Outono, Morangos Silvestres e Persona, o diretor sueco vai fazer falta, mas deixou, indiscutivelmente, a sua marca na história do Cinema.

E eis que o dia passa e mais uma baixa é anunciada no campo dos grandes cineastas. O italiano Michelangelo Antonioni também morreu nesse início de semana, exatamente no mesmo dia em que Bergman nos deixou. Responsável por uma obra apreciada no mundo todo, Antonioni começou a ser notado a partir do final da década de 50 por construir um estilo próprio e pelos vários prêmios com os quais foi agraciado nos maiores festivais do mundo (Cannes, Veneza e Berlim). É dele a trilogia da incomunicabilidade composta por A Aventura, A Noite e O Eclipse, que o elevou ao status de grande mestre do cinema. Depois, filmando em inglês, criou novas obras-primas como Blow Up – Depois Daquele Beijo e Profissão: Repórter. Outra perda irreparável, num mesmo dia. De fato, o começo da semana não foi nada agradável.

Postado por Rafael Carvalho

Visita ao Irã

Há algum tempo o cinema feito no Irã ganhou prestígio ao redor do mundo através de realizadores como Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf, Majid Majidi e outros que estavam e ainda estão sempre presentes nos maiores e melhores festivais de cinema do planeta. Um desses grandes diretores é Jafar Panahi, que com seu estilo seco e objetivo, capta as contradições e mazelas de seu país. É dele os três filmes comentados abaixo que tive a oportunidade de ver recentemente e me admirei com sua qualidade em retratar os dramas pessoais daquele povo, imerso nunca cultura tão diferente da nossa.


O Círculo (Dayereh, IRA, 2000)


Com esse filme (Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2000), o diretor constrói um interessante exercício de estilo ao narrar a história de mulheres que saíram da prisão e precisam ser aceitas de volta na sociedade. A partir daí, o filme vai nos apresentando a outras personagens, cada qual com seus dramas, formando um círculo vicioso de degradação humana. Assim, a figura feminina, com sua fragilidade exposta num país que a reprime ao extremo, é o centro de discussão do longa. É angustiante ver aquelas personagens jogadas à própria sorte enquanto buscam uma direção a tomar. A história deixa sim muitas questões sem explicação exata, mas me parece ser um filme de perguntas, não respostas, com a evidente intenção de tocar numa ferida. E garanto que é uma experiência das mais gratificantes.


Ouro Carmim (Talaye Sorkh, IRA, 2002)


Ouro Carmim é uma narrativa sutil tendo como figura central um homem que vive do roubo durante o dia e à noite entrega pizzas nos bairros mais luxuosos da capital Teerã. A partir daí, Panahi escancara as diferenças entre ricos e pobres e ainda ataca o sistema político controlado pelo regime autoritário dos aiatolás. O filme começa com uma cena de roubo seguida do suicídio do próprio ladrão. A seguir, acompanharemos os fatos que levaram àquela situação. Há cenas longas que podem parecer chatas, mas se revelam bastante significativas para a história, como a seqüência da entrega de pizzas numa festa ou a quase surreal visita a um suntuoso apartamento. Momentos assim nos deixam estarrecidos pelo inusitado da situação e agraciados com o talento do diretor.


Fora do Jogo (Offside, IRA, 2006)


Lançado esse ano nos cinemas brasileiros, Fora do Jogo continua investindo na figura feminina, mas agora é também sobre a paixão ao futebol. Durante as eliminatórias para a Copa de 2006, a equipe do Irã briga por uma vaga no Mundial. Acompanhamos, assim, a história de algumas garotas, apaixonadas pelo esporte, que querem muito ver a partida, mas são barradas já que mulheres não são permitidas em estádios. Com um tom levemente documental, Panahi fez aqui um filme mais leve, embora não deixe de alfinetar o sistema, mais uma vez discutindo o papel da mulher em sua sociedade; e é através delas que testemunhamos, com alegria, a alegria de um povo diante de uma vitória.


Postado por Rafael Carvalho

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Amores parisienses

Paris, Te Amo (Paris, Je T'aime; FRA, ALE, SUI; 2006)
Cotação: 7/10



Pegue 22 talentosos cineastas de países diferentes, jogue-os na bela e apaixonante Paris e lhes peça que filmem uma curta história de amor. O resultado é um filme agradável com a maioria das histórias acima da média, principalmente se levarmos em consideração o pouco espaço de tempo que cada diretor tinha (os segmentos têm em média cinco minutos). E a própria idéia de reunir pessoas com visão e estilo diferentes com liberdade total para criar já é interessante por si só.

Composto por 18 curtas que recebem nomes de bairros e locais da capital francesa, Paris, Te Amo é um filme leve e, claro, diverso, mas que consegue se manter coeso e fiel à proposta original. As situações são as mais diversas: alegre, melancólicas, engraçadas, assustadoras. Amores se perdem, se transformam, resistem ao tempo; outros, à espera de concretização.











O filme começa mediano, mas vai se encontrando aos poucos. Montmartre abre o longa e sugere um encontro inusitado entre um sujeito angustiado e solitário com uma mulher que desmaia ao lado de seu caro. A diretora queniana Gurinder Chadha faz um jovem francês se enamorar por uma garota mulçumana, deixando clara a idéia de tolerância com a jovem em defesa de sua fé e os hábitos de sua religião. O humor irônico, inteligente e nonsense dos irmãos Coen surge com um Steve Buscemi, com cara de pateta, passando por maus bocados numa estação de metrô. Já Gus Van Sant, com muita simplicidade e sem exageros estéticos, nos dá a possibilidade de um relacionamento entre dois rapazes com uma surpresinha no fim, engraçada e interessante.

Como se trata de um filme episódico, há sempre alguns segmentos decepcionantes. Walter Salles (ele mesmo que eu adoro) em parceria com Daniela Thomas conta a luta de uma babá (Catalina Sandino Moreno) que precisa deixar seu filho numa creche para cuidar de outra criança. Ao fim, fica a sensação de que a história foi pouco aproveitada, embora seja muito bem dirigida. Mas até agora não sei como um curta tão idiota como Porte de Choisy, de Christopher Doyle foi parar aqui. O encontro entre uma modelo chinesa e um vendedor de produtos de beleza é totalmente dispensável e de mau gosto.

Maggie Gyllenhall está ótima na pele da atriz norte-americana viciada, filmada com a câmera nervosa de Olivier Assayas. Já a excelente Juliette Binoche é desperdiçada em Places des Victoires vivendo uma mãe que perdeu seu filho recentemente, numa história lúdica de superação; pena que os dois curtas não são tão bons quanto bem atuados. Lúdico mesmo é a história do mímico solitário que busca uma parceira pelas ruas de Paris e vai encontrar seu amor numa prisão. Em outro estranho ambiente, um clube de striptease, um casal em crise tenta acender a chama do amor, contando com a
presença em cena dos ótimos Fanny Ardant e Bob Hoskins.

Há algo de melancolicamente belo na história de um homem que precisa estar ao lado de sua mulher num momento difícil e precisa aprender a se reapaixonar por ela. Há também algo de cinicamente oculto no segmento enfocando o casal que decide se separar, mas deixa evidente o desentendimento entre ambos, mesmo que sutilmente (ótimos desempenhos de Ben Gazzarra e Gena Rowlands). Ambos os curtas são muito bem escritos, com texto elegante e enxuto. Pelo contrário, em Quartier de la Madeleine, não se diz uma palavra, mas Vincenzo Natali constrói muito bem o encontro bizarro de um garoto (Elijah Wood) com uma vampira.

Alfonso Cuarón, em um único plano-sequência, conta com simplicidade o bem-humorado encontro entre pai e filha, com direito a surpresa no final. Place de Fêtes, do africano Olivier Schmitz, por sua vez, é um interessante quebra-cabeça cujas peças vão dando conta do encontro fatídico entre um acidentado e uma enfermeira afro-descendentes de forma tocante. Wes Craven, acostumado a filmes de terror, surpreende com a discussão da relação de um jovem casal num cemitério, com direito a fantasma de Oscar Wilde (vivido por Alexander Payne). Mas é o diretor alemão Tom Tykwer quem cria um dos melhores segmentos do filme, com um rapaz cego cuja namorada (Natalie Portman, linda) decide romper o namoro. Passa, então, por sua cabeça todos os momentos bons por que passaram juntos. Esse me fez pensar o quanto é importante dar valor as coisas que temos antes que seja tarde demais.




E para finalizar o projeto, nada melhor que o melhor. Paris, Te Amo deixa para o final uma pequena pérola, em meio a tanta coisa boa. Alexander Payne, de forma primorosa, dá vida às peripécias de uma turista norte-americana um tanto burrinha. Primeiro, com alívio cômico (é hilária a cena em que ela visita o túmulo de Sartre), além de outras tiradas inteligentes, para no fim revelar a descoberta do amor de sua personagem pela cidade de forma simples e ao mesmo tempo tocante. É a celebração do amor em seu estado mais puro.


E aí, por qual deles vocês se apaixonaram mais?

Postado por Rafael Carvalho

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Poesia melosa

O Tigre e a Neve (La Tigre e la Neve, ITA, 2005)
Dir: Roberto Benigni
Cotação: 4/10


Roberto Benigni é um ótimo ator aliado ao ótimo texto que ele mesmo escreve. Suas tiradas são engraçadas e inteligentes, e ninguém melhor do que ele próprio para encarnar o personagem atrapalhado e isento de malícias de seus filmes. Pena que nesse seu novo trabalho o resultado não seja tão satisfatório, pois fica clara a óbvia intenção de forçar o espectador a se emocionar.


Isso, aliás, é bastante estranho vindo do cara responsável pelo excelente A Vida é Bela que aliava magnificamente bem o humor e a emoção, numa história trágica, porém bonita. Em O Tigre e a Neve ele vive Attilio, um poeta que tenta reconquistar sua ex-mulher (interpretada por Nicoletta Braschi) com a qual tem duas filhas. Quando ela viaja ao Iraque e é ferida durante os bombardeios norte-americanos de 2003, ele parte em seu socorro.

Atrapalhado, ele vai contar com a ajuda de seu amigo Fuad (vivido pelo ator francês Jean Reno) para encontrar sua amada e reconquistar seu amor. São nesses momentos que a história vai ficando melosa e bobinha, auxiliada pela trilha sonora um tanto piegas.

Benigni (que lembra Woody Allen por roteirizar seus próprios filmes e criar um alter ego seu, interpretando-o como ninguém – mas cada qual com seu estilo peculiar, que se diga logo) confere graça a seu personagem, embora se repita. Pena que Nicoletta Braschi (esposa de Benigni e produtora do filme) não possua o mesmo talento. Confesso ter pensado, no início do filme, que a personagem sofria de alguma doença na cabeça, mas essa minha impressão não se concretizou.

Outra ressalva que se faz é em relação à montagem que parece confusa no início mas vai se ordenando à medida em que o filme transcorre. Pelo menos, ao fim, nenhuma ponta da história fica solta. Mas o que realmente é difícil de perdoar são os fracos efeitos digitais utilizados para criar elementos de cenas (aquela neve...). Deram um ar um tanto falso à história, reduzindo o encanto.

O Tigre e a Neve tenta repetir a façanha de A Vida é Bela (impossível não fazer essa comparação), mas está longe de conseguir. Assim, fica a sensação de que se o filme se baseasse somente no talento de seu diretor-ator-roteirista para a comédia alegórica, o resultado poderia ser bem mais agradável.
Postado por Rafael Carvalho